Nosso Deus é o Deus da Divina Misericórdia - Dom Mauro Montagnoli

30-08-2011 01:52

 

No primeiro dia da semana os discípulos estão reunidos, ainda com medo das autoridades judaicas e romanas. O Senhor ressuscitado se coloca no meio deles. Quem não está na comunidade não vê o Senhor. Oito dias depois, novamente Jesus põe-se no meio deles e Tomé faz a sua grande profissão de fé. O Senhor apresenta-se com os sinais gloriosos da paixão; sopra sobre eles e lhes transmite o Espírito.
 
O texto do Evangelho de João, capitulo 20, versículos 19 a 31, narra a aparição de Jesus aos discípulos na tarde do mesmo dia, o primeiro da semana, isto é, no dia da Páscoa. Assim, o evangelista recorda o costume dos cristãos, que à tarde do domingo, costumavam celebrar a eucaristia como memorial da ressurreição do Senhor. “Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco”(Jo 20,19). Jesus ressuscitado comunica a paz verdadeira, que liberta do medo e infunde confiança. Ele se dá a conhecer aos discípulos, mostrando-lhes as mãos e o lado, as marcas, sinais, os estigmas da paixão. Os discípulos exultam de alegria porque descobrem que o Senhor está vivo. A paz e a alegria são dons do Cristo ressuscitado, que possibilitam reconhecer a sua presença no meio da comunidade reunida.
 
Como o Pai o havia enviado, Jesus envia seus discípulos para a missão, revestindo-os com a vida nova do Espírito, que os capacita para libertar do pecado, da opressão. O sopro, que lembra Gn 2,7, caracteriza a nova criação, a vida nova que surge a partir da ressurreição de Jesus. O Espírito Santo, prometido antes da partida de Jesus (Jo 16,7), renova o universo e assegura o êxito no trabalho missionário.
 
Oito dias depois”, Jesus aparece novamente aos discípulos, desta vez na presença de Tomé, repreendido por causa de sua incredulidade. Tomé, como representante de todos os cristãos que aderem ao Senhor, faz uma profunda profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Acreditar em Cristo morto e ressuscitado é o núcleo central da mensagem cristã. O ensinamento dos apóstolos, a escuta da palavra, a celebração da eucaristia, as orações, a comunhão fraterna é que dão sustento à vida e à missão das comunidades primitivas (cf. Atos 2,42-47). A simplicidade, a alegria e a solidariedade atraem o povo, multiplicando o número dos seguidores de Jesus. A nova forma de vida da comunidade testemunha a presença de Jesus ressuscitado em seu meio.
 
O Salmo 117(118), relido na perspectiva cristã, convida a dar graças pela vitória de Cristo. “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22). Com esse versículo, a Igreja primitiva procurou entender a rejeição e morte de Jesus por seu próprio povo (cf. Mt 21,42; At 4,11; lPd 2,7). Por meio da ressurreição, Cristo tornou-se pedra angular do edifício, o alicerce da vida cristã. 
São Pedro escreve aos cristãos que vivem em meio a provações e discriminações e perseguições, e reafirma sua fé e esperança em Cristo ressuscitado (cf. lPd 1,3-9).
 
Os textos da Sagrada Escritura acentuam a realidade da ressurreição e a profissão de fé no Senhor ressuscitado. “Felizes os que acreditam sem terem visto”. A Palavra e o testemunho de fé dos apóstolos que viram o Senhor vivo e ressuscitado, nos possibilitam crer sem ver. Como Tomé, podemos fazer uma profunda profissão de fé a partir do encontro com Jesus na comunidade reunida para a celebração dominical.
Vale para nós também o elogio que Pedro faz aos seus ouvintes: “Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (lPd 1,8-9). Somos chamados a participar da alegria da salvação, testemunhando a ressurreição de Cristo mediante a paz, a esperança, a vida nova.
 
Somente a partir de uma vida alicerçada na fé e na partilha solidária, é que a comunidade dos crentes testemunha que Cristo está vivo, ressuscitado. A presença do Senhor abre as portas do nosso coração e nos faz romper as barreiras do medo, enviando-nos em missão com a força do seu Espírito. Que o Senhor Ressuscitado fortaleça em nós a fé e a esperança e nos torne construtores de um mundo novo de partilha, fraternidade e solidariedade.
 
Dom Mauro Montagnoli
Bispo de Ilhéus