A Transição e as Reformas

A Transição e as Reformas

 

Vários fatores contraditórios coincidem na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. As elites são alimentadas por uma nova visão, agoraantropocêntrica e por um certo retorno à antiguidade pagã. Os papas do renascimento, com exceção de Adriano VI, são mais voltados para as artes e letras, tornaram-se mais governantes voltados para os assuntos temporais e verdadeiros mecenas, que preocupados com os problemas disciplinares eclesiásticos e para as questões espirituais.

Constantinopla cai no dia 29 de maio de 1453 na mão dos turcos otomanos. Perde-se o Império Cristão do Oriente que começava a se reaproximar depois do "Grande Cisma". Fechadas as portas para o Oriente têm início então as "grandes navegações" em que se destacaram as nações católicas Portugal eEspanha, a descoberta das Américas abre caminho para o Evangelho chegar a novos povos e permite novas perspectivas em que irão se destacar, no primeiro momento, os jesuítas de Santo Inácio de Loyola.

É deste tempo, o Humanismo, culto exagerado dos clássicos latinos e gregos, defendia uma piedade erudita. O maior dos humanistas foi Desidério Erasmo (1466 - 1536), de Roterdão, amigo de Thomas Morus. Na verdade, com exceção da Espanha, onde o humanismo apoiado pelo Cardeal Cisneros foi sinceramente cristão, a herança religiosa dos humanistas pouco contribuiu para uma esperada reforma da Igreja. A grande divisão seguinte da Igreja Católica ocorreu no século XVI com a Reforma Protestante, durante a qual se formaram muitas das denominações Protestantes.

A Reforma protestante teve Martinho Lutero por autor. Antigo frade da ordem dos Agostinhos, a sua constestação à Igreja Católica foi auxiliada pela decadência moral, pelos interesses burgueses e por fatores de ordem política, como os conflitos entre papas e imperadores germânicos, o ressentimento contra Roma que tinha tomado forma nos Gravamina Nationis Germanicae, um império germânico fragmentado em pequenos principados e cidades-estado e os nacionalismos eclesiásticos.

Na sequência da sua contestação, Lutero construiu um sistema doutrinal-religioso em franca divergência com a tradição da Igreja. Segundo Lutero, as obras do homem de nada servem para a salvação, nem os sacramentos na sua maioria, nem o Papado. A Igreja não seria nem depositária e nem interprete da Revelação. A Sagrada Escritura apenas e exclusivamente seria a única fonte da Revelação segundo a interpretação livre que cada fiel em particular lhe desse, diretamente inspirado por Deus. Publicou as 95 teses contra a Teologia Escolástica e as 95 sobre as Indulgências. Em 1521 foi excomungado.

As doutrinas de Lutero tiveram boa aceitação: a supressão do celibato eclesiástico por não poucos sacerdotes, numa época de baixo nível moral do clero, e a supressão dos votos monásticos por comunidades religiosas; a doutrina de que "a fé sem as obras justifica" (sola fide) foi aproveitada por pessoas ainda ressentidas contra o poder papal, contudo desejosos de garantir a própria salvação sem a relação com a Igreja. Também a possibilidade de se apropriar dos bens da Igreja atiçou a cobiça dos príncipes.

Em 1546, quando Lutero faleceu, a Reforma protestante já abrangia mais da metade da Alemanha. Em 1545 tem início o Concílio de Trento que o imperador Carlos V de Habsburgo, defensor da fé católica, vinha reclamando havia quinze anos. O conflito entre o imperador e os nobres e príncipes protestantes terminou em luta armada. Pelo tratado de paz de Augsburgo ficou concedida a igualdade de direitos entre católicos e protestantes e ficou estabelecido que aos príncipes caberia decidir a confissão a ser seguida no respectivo território.

Zuínglio na Suíça, João Calvino na França, levaram adiante ideias similares às de Lutero. O Calvinismo vai arraigar-se com profundidade em Genebra, entre os franceses (huguenotes), na Escócia com John Knox e de uma forma mais amena nos Estados Unidos com a Igreja Presbiteriana. Na Inglaterra,Henrique VIII, por razões pessoais - não obtendo a invalidação de seu casamento - se faz Cabeça suprema da igreja no país - provocando o martírio de Tomás Moro, Lord Chanceler do Rei, de John Fisher, Bispo de Rochester, e de alguns sacerdotes, frades franciscanos e monges capuchos.

A Reforma Católica também conhecida como Contra-Reforma teve como ponto principal o Concílio de Trento, embora este movimento tenha começado anteriormente em vários setores da Igreja. O Concílio não conseguiu o objetivo almejado por Carlos V de restaurar a unidade cristã; mas realizou uma obra imensa, tanto no campo da doutrina católica como no da disciplina eclesiástica.

Em 1534 foi eleito Papa, aos 66 anos de idade, o Cardeal Alexandre Farnesio, que tomou o nome de Paulo III. Vencendo a resistência de reis e príncipes convocou o Concílio Ecumênico de Trento, que inicia os trabalhos as 13 de dezembro de 1545 e só concluiu em 1563.

O Concílio determinou um novo vigor para a Igreja Católica. Medidas reformadoras foram impostas em todos os países que se mantiveram fiéis a Roma, cessando o avanço do protestantismo. Em alguns cantões Suíços, na Baviera, na Polônia, na Áustria consolidou-se o catolicismo. O avanço português e espanhol nas Américas, África e Ásia serviu de veículo à expansão da fé católica. Acabaram-se os pregadores de indulgências de "meia-pataca", puseram-se fim aos abusos e ao relaxamento moral do clero, restabelecendo uma disciplina eclesiástica. A Vulgata de São Jerônimo seria a tradução latina oficial da Igreja, todas as teses protestantes foram discutidas e revigorou-se as doutrinas dogmática, moral e sacramental católicas.

Ao mesmo tempo São Pedro Canísio no Leste Europeu, São Carlos Borromeu como secretário de Estado de Pio IV, e mais tarde arcebispo de Milão, aplicando a Reforma Católica ao norte da Itália, foram elementos importantes para o cumprimento dos decretos do Concílio de Trento. Santa Teresa de Jesus, reformadora do Carmelo; Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, ao falecer deixara ordenados mais de mil jesuítasevangelizando o mundo inteiro, e São Filipe Néri, foram três gigantes da Reforma Católica. São Thomas Morus morreria decapitado por se manter fiel à fé, juntamente com John Fisher e o Venerável Edmundo Campion. São Francisco Xavier levaria o Evangelho ao Extremo Oriente, à Índia, Malaia, Japãoe à China, São Francisco de Borja repararia com folga os erros de sua família, São Roberto Belarmino daria novo impulso á teologia. A Igreja ressurgia da crise fortalecida e revigorada doutrinal e espiritualmente. Após o Concílio de Trento São Pio V, Gregório XIII e Sisto V se destacaram pela energia do seu trabalho como grandes reformadores. 

É dessa época o Calendário Gregoriano. Gregório XIII, sucessor de S. Pio V, fundou uma série de colégios eclesiásticos para melhoria da formação do clero. Determinou que uma comissão de peritos com a colaboração de um erudito jesuíta Cristóvão Clávio, astrônomo e matemático, procedesse ao estudo e à reforma do calendário "Juliano". Os trabalhos foram concluídos em 1582 e o dia 4 de outubro seria seguido do dia 15. É o calendário seguido pelo mundo inteiro para efeitos civis.