CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O TEMPO DA QUARESMA

CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O TEMPO DA QUARESMA

Nós cristãos celebramos todo ano na festa da Páscoa a morte e ressurreição de Jesus. É a maior de todas as festas. A mais importante. Grande demais para ser preparada em apenas três dias ou uma semana. Por isso, estendemos a sua preparação para quarenta dias. Daí Quaresma, período de quarenta dias, que vai da Quarta-feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa pela manhã.

Nesses quarenta dias (Quaresma) de preparação para a Páscoa, lembramos os quarenta anos do povo de Deus no deserto. Sobretudo revivemos os quarenta dias que Jesus passou no deserto, preparando-se para a sua missão.

É um tempo em que fazemos o caminho para a Páscoa, motivados pela mensagem e unidos aos sentimentos de Jesus Cristo, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade com os irmãos.

É o tempo em que, na tradição da Igreja, os catecúmenos se preparam intensamente para o Batismo na noite da Páscoa, isto é, na Vigília Pascal. E os já batizados se preparam para renovar nessa mesma noite o compromisso batismal.

É um tempo de graça e bênção, de escuta da Palavra de Deus, de conversão e mudança de vida, de recordação e preparação do Batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos. Tempo de oração mais intensa; tempo de jejum como aprendizagem, entrega e docilidade à vontade do Pai; tempo de esmola ou de partilha de bens e de gestos solidários, de carinho com os pobres e necessitados.

As celebrações mais importantes do tempo da Quaresma são: Quarta-feira de Cinzas, através da qual abrimos esse tempo de preparação pascal: "Convertei-vos, e crede no Evangelho!". Depois temos cinco domingos da Quaresma, nos quais as comunidades se reúnem para celebrar a presença viva do Senhor que nos mostra o caminho para a vitória definitiva da Páscoa. Depois vem o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, no qual lembramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, onde ele sofrerá a paixão e mergulhará na morte, para depois ressuscitar vitorioso. Ainda, como parte da Quaresma, se celebra na Quinta-feira Santa a missa dos Santos Óleos. Nas comunidades se fazem também celebrações penitenciais, como sinais da nossa busca de conversão e da misericórdia de Deus que nos acolhe em seu perdão. Nelas, também se celebram ofícios próprios, como meio de intensificar a oração.

As leituras dominicais da Quaresma deste ano (ciclo C) estão organizadas de tal maneira que nos conduzem harmonicamente pelo caminho que nos leva até a plenitude da Páscoa de Cristo:[1]

As primeiras leituras (do AT), possuem uma dinâmica interna original. Elas nos apresentam os grandes momentos e aconteci- mentos da história da salvação, desde o princípio até a chegada de Jesus.

As etapas do plano histórico da salvação de Deus são vistas sob o prisma da celebração litúrgica, isto é, do culto de Israel: a profissão de fé dos israelitas, como memorial litúrgico;

a aliança de Deus com Abraão; 3) o êxodo realizado pelo Deus libertador, por meio de Moisés; 4) a primeira Páscoa celebrada na terra prometida; 5) a volta do exílio: "Eis que eu farei coisas novas"; 6) (Domingo de Ramos) a entrega total do Servo.

O salmo, como sempre, é como que um prolongamento, em tom contemplativo ou sapiencial, do que foi anunciado na primeira leitura.

As segundas leituras (de Paulo) complementam, a modo de aplicação espiritual, a mensagem da primeira leitura, ou às vezes antecipam o que nos vai dizer o Evangelho.

Elas se alternam em duas direções: 1) a confissão da fé, agora cristã (comentário à primeira leitura); 2) nova vida, transformada como a de Cristo (antecipação ao Evangelho); 3) a vida cristã como novo êxodo em Cristo (complemento da primeira leitura); 4) Cristo reconciliador traz a reconciliação (antecipa a parábola do filho pródigo do Evangelho); 5) a vida cristã, transformada pela Páscoa: "corro para a meta que é Cristo"; 6) Cristo no mistério de sua entrega pascal.

Os evangelhos seguem uma linha clássica: nos dois primeiros domingos são iguais nos três ciclos, cada vez a partir do evangelista próprio do ano: 1) as tentações de Jesus no deserto;
2) sua transfiguração na montanha. - O terceiro, quarto e quinto domingos no ciclo C (2016) nos apresentam: a conversão e a misericórdia de Deus; 3) o convite de Cristo à conversão;
4) A parábola do filho pródigo; 5) A mulher adúltera; 6) Domingo de Ramos: Evangelho da Paixão do Senhor segundo Lucas.

São várias as atividades, símbolos, atitudes, iniciativas humanas e religiosas, que acompanham e enriquecem esse tempo, no qual, como em toda preparação, já saboreamos de certa maneira a festa que virá. Por exemplo:

a. A Campanha da Fraternidade (CF): A CF (Ecumênica, neste ano) “quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade. A vida em fraternidade é síntese do Evangelho quanto às relações humanas e testemunha a nossa dignidade como verdadeiros filhos e filhas de Deus. A solidariedade e a fraternidade são aqueles passos a mais que permitem edificar uma sociedade em que todos se sintam como família, com a paz, a harmonia e a segurança que vêm do apoio mútuo entre os seres humanos”.[2]

A Quaresma é o período forte da CF. “Seu sentido vem da relação com a Páscoa de Cristo, anúncio de transformação e força de ressurreição e de vida para o mundo. É tempo de reflexão e conversão e, por isso, se torna uma oportunidade bem apropriada para viver uma espiritualidade pascal capaz de gerações transformadoras. A conversão pessoal e a transformação do mundo em conformidade aos valores do Reino de Deus são duas dimensões entrelaçadas, que devem estar juntas. A conversão é ao mesmo tempo voltar-se para Deus e virar-se para o próximo. A Quaresma deve ser vivida, portanto, como tempo de transformação da vida pessoal e da realidade eclesial e social. Ela se torna, assim, um testemunho importante, tanto na direção da unidade cristã, como no trabalho em defesa da vida, na promoção da justiça e da solidariedade para alcançar a paz verdadeira”.[3]

A CF deste ano, como já aludimos, é uma Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), promovida pelas Igrejas Cristãs no Brasil, presentes no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs
(CONIC), e tem como tema "A Casa comum, nossa responsabilidade". “Esta é a quarta campanha da fraternidade realizada de forma ecumênica, e tem como objetivo geral unir Igrejas cristãs e pessoas de boa vontade na promoção de uma economia a serviço da vida, sem exclusões, construindo uma cultura de solidariedade, fraternidade e paz. É necessário conclamar a todos e todas para construir "a casa comum", educar a sociedade afirmando que um novo modelo econômico é possível, e denunciar as distorções da realidade econômica existente, para que a economia esteja a serviço da vida”.
[4]

Nesta CFE, “as comunidades cristãs são lembradas das palavras de Jesus: 'Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde as traças e os vermes arruínam tudo, onde os ladrões arrombam as paredes para roubar. Mas acumulais para vós tesouros no céu' (cf. Mt 6,19-20a). 'Ninguém pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro!' (cf. Mt 6,24). Toda a vida de Jesus foi um testemunho de simplicidade no uso dos bens materiais, de solidariedade com os pobres, de distribuição gratuita dos dons de Deus”.[5]

E que ela de fato “estimule a repensar os valores do Reino de Deus, a acreditar que uma nova sociedade, mais justa e solidária, é possível, a construir um modelo econômico em que a vida
esteja em primeiro lugar”.
[6]

Em outras palavras, a CFE deste ano quer “ser um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para enfrentar, com consciência crítica, os temas do desenvolvimento e da justiça, da economia e da vida humana no Brasil e no mundo. O gênero humano começou uma nova existência em solidariedade mundial, que exige uma concepção planetária do bem comum para dar início a outra civilização. Uma pessoa cristã não pode olhar para o mundo e aceitar que continue a vigorar uma política de sobrevivência somente a serviço dos privilegiados pela riqueza”.[7] Por isso, a CFE 2010 reitera:

•.. “Denunciamos a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte.

•.. Afirmamos que a economia deve sustentar a qualidade de vida de todas as pessoas no limite das condições sustentáveis ao Planeta e deve servir ao bem comum, universalizando os direitos sociais, culturais e econômicos.

•.. Queremos buscar linhas de compromisso concreto e de ação para que a riqueza e a política econômica sejam colocadas a serviço do desenvolvimento integral de toda a sociedade brasileira e da humanidade. Sem passar a ações bem concretas na vida e cada pessoa e da política de Estado, sem dar novos rumos às metas e finalidades da organização da economia, toda boa intenção e todo bom discurso moral se tornam vazios”.[8]

Portanto, a CFE deste ano “conclama Igrejas, religiões e toda a sociedade para ações sociais e políticas que levem à implantação de um modelo econômico de solidariedade e justiça para todas as pessoas. Para alcançar essa meta a CFE ecumênica destaca a importância da ação coletiva para a transformação social. O diálogo permanente e a articulação das forças sociais, a colaboração entre Igrejas e sociedade, a formação de militantes, uma política sindical que lute pelos direitos não somente dos trabalhadores empregados, mas dos pobres sem trabalho, sem moradia, sem garantias de sustento para si e suas famílias. A cooperação é urgente em uma sociedade que sofre pelo individualismo e a desarticulação”,[9]

b. A cor roxa, as cinzas e a cruz lembram o caráter de penitência e conversão. A espiritualidade da Quaresma se manifesta também no visual do espaço celebrativo, sóbrio, despojado. Por isso, neste tempo se evita enfeitar o local das celebrações com flores.

c. O jejum (com a cabeça perfumada) nos orienta a dar mais atenção à Palavra de Deus. Quando a gente faz jejum, a gente fica com fome. E a "fome" que sentimos, quando fazemos jejum, simboliza bem (evoca) a fome que temos da Palavra de Deus.

d. Ajudados pela CF, intensificamos a prática da caridade, procurando corrigir e aperfeiçoar, à luz da Palavra de Deus, nosso jeito como tratamos as pessoas e com elas nos relacionamos, sobretudo os mais pobres e sofredores, e como procuramos ajudá-los a viver com dignidade.

e. Nesse tempo forte da vida da Igreja intensificamos nossa vida de oração, na forma de súplicas, pedidos de perdão, intercessão, agrade- cimento, compromissos de fé, melhor participação na comunidade etc. É um tempo próprio para, nas comunidades, a gente participar de alguma celebração penitencial, individual ou comunitária.

f. Podemos expressar nossa vontade de participar da caminhada sofrida de Jesus vítima da violência, de ontem e de hoje, participando de procissões (de ramos, do encontro, do Senhor morto etc.), vias-sacras, círculos bíblicos etc.

g. Expressamos o "clima" próprio de Quaresma também através da música e do canto. Há uma música própria e cantos que caracterizam este tempo, além do hino da CF. Está publicado pela Paulus Editora um CD com todos os cantos próprios da Quaresma e da CF para a missa de cada domingo da Quaresma deste ano. É uma boa ajuda para as equipes prepararem as celebrações. O Hinário 2 da CNBB apresenta um bom repertório de músicas litúrgicas para o tempo da Quaresma. Aliás, na Introdução deste Hinário há uma reflexão muito interessante sobre o que significa "Cantar a Quaresma", "Cantar Domingo de Ramos e da Paixão", "Cantar a Ceia do Senhor", "Cantar a Paixão do Senhor". Vale a pena ler e estudar esse texto, pessoalmente e nas reuniões das equipes de liturgia. O Ofício Divino das Comunidades oferece inúmeras alternativas de refrãos, aclamações, hinos e versões de Salmos penitenciais com melodias mais populares, garantindo seu caráter litúrgico e a fidelidade aos textos bíblicos. É um material muito apropriado para a vivência litúrgica da Quaresma. Para ajudar nesta vivência, é aconselhável também que se evite na Quaresma o toque de instrumentos musicais. A não ser que seja para sustentar o canto. Fora disto, nada de música instrumental, nem canto do "Glória" nem de ''Aleluia''.

h. Já que a Quaresma é um tempo especial, as celebrações dominicais e festivas das comunidades, neste tempo, precisam ser bem preparadas.

i. É importante que a comunidade tenha um ou mais jovens ou adultos que, tendo feito o pré-catecumenato e o catecumenato, realize a segunda etapa do Rito de Iniciação Cristã de Adultos.[10] No primeiro domingo da Quaresma são realizados os ritos de eleição e inscrição do nome.[11]  O terceiro, quarto e quinto domingos são destinados aos escrutínios: oração sobre os eleitos, preces e exorcismos. Aí, se os eleitos estiverem preparados, podem ser feitas as entregas: do símbolo (o Credo) e da oração do Senhor (Pai-Nosso).

Recordamos, uma vez mais, que a Quaresma é chamada "tempo forte de conversão", de mudança de vida (metánoia), que nos insere profundamente no mistério de Cristo, "o rosto misericordioso do Pai". Por esta razão, “a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia do Pai”.[12]

 

(In Subsídios homiléticos, CNBB, ano 2 – nº 7, Ano 2016,  p. 9-16)


[1]  Cf. ALDAZÁBAL, J. Enseñame tus caminos 10: Domingos ciclo C (= Dossiers CPL, 99). Centre de Pastoral Litúrgica. Barcelona, 2003, p. 104-105.

[2] CONIC. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2009, n. 89

[3] Ibidem, n. 7.

[4] CONIC. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2009, Apresentação; cf. n. 12 e 15.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] CONIC. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2009, n. 89.

[8] Idem.

[9] Ibidem, o. 90.

[10]  Cf. RICA, o. 68-27.

[11] 11 Cf. Ibidem, n. 133-151

[12] 12 PAPA FRANCISCO. Misericordiae Vultus, Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Vaticano, 11 de abril de 2015, n. 17. Brasília: Edições CNBB, 2015.