Desafios atuais das CEBs

Desafios atuais das CEBs

 

É conversando com pe. Fernando Altemeyer Jr., assessor da Ampliada Nacional do 10º Intereclesial (ver quadro) junto com pe. José Oscar Beozzo, que aprendemos quais são os atuais desafios das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil. Pe. Fernando é atualmente professor na PUC de São Paulo e membro da coordenação da pastoral da comunicação da Arquidiocese de São Paulo.

"Nos anos 90 - conta Pe. Fernando - as CEBs entraram numa vida submersa. Durante a época da ditadura, quando tudo estava submerso, as CEBs brilhavam; agora que não há mais ditadura, as CEBs imergiram no fundo". Essa vida submersa e clandestina é revelada pela pouca visibilidade institucional e pela pouca relevância que as comunidades têm nos meios de comunicação e no campo eclesial. Mesmo não ocupando muito espaço na preocupação dos bispos e na metodologia pastoral, "as CEBs - diz pe. Fernando - continuam tendo um forte vínculo com as lutas populares, com as ONGs (Organizações não governamentais), com os grupos de mulheres e lá onde a vida está mais esmagada (AIDs..)".
Ainda, segundo pe. Fernando, as CEBs estão dando mais espaços à questão étnica. Negros e indígenas são de casa nas CEBs. É aqui que os grupos fazem descobertas das próprias raízes e levantam a cabeça. O momento é muito mais sapiencial que profético.
Trata-se de um dinamismo subterrâneo em que a seiva continua correndo e produzindo vida, a qual porém não é visível se não na vida da planta que cresce vigorosa. Isto acontece "mesmo que os novos padres não apoiem e atuem mais como funcionários da instituição."

CEBs e política nos anos 90

E pe. Fernando Altemeyer Jr. continua a reflexão:
"Há um certo desencanto das comunidades com a questão política. Antes de tudo, o modelo econômico neoliberal e a falta de um projeto alternativo das esquerdas fazem com que as Cebs fiquem recuadas e decepcionadas. A grande atenção das comunidades se desloca mais para o local. Lá onde é possível a participação popular, os orçamentos comunitários, a pressão e a atuação direta nas prefeituras e nos Estados, as CEBs se movem com mais força e entusiasmo. Na grande política há muita decepção. Até os grandes partidos, historicamente ligados à mudança social, estão sem perspectivas e projetos. Imagine as bases."

CEBs e estrutura da Igreja

"Está muito difícil! Na Igreja Católica, infelizmente, os leigos são ainda pouco considerados. A estrutura da Igreja é ainda muito piramidal. Como pe. Libânio diz, devemos resgatar a experiência do primeiro milênio que pode servir para o terceiro. Sim, porque a Igreja do segundo milênio foi uma Igreja feudal e piramidal. O leigo não pode ser sempre o funcionário do padre. Pense, por exemplo, na questão missionária: numa igreja toda ministerial, toda a Igreja seria missionária. Mas, até hoje ainda a missionariedade específica está ainda muito concentrada nas congregações religiosas."

CEBs e outras forças da Igreja

"As Cebs aprenderam às duras penas que elas não eram o único modelo eclesial. Num tempo, elas tinham uma certa vaidade como qualquer movimento novo. As CEBs são uma estrutura de base da Igreja, mas não a única maneira de a Igreja se expressar. Hoje, elas estão mais maduras e dialogam com outros movimentos dentro da Igreja, incluídos os carismáticos. Antes havia um certo leninismo, para usar uma expressão forte, um leninismo eclesiástico. Às vezes, brinco com grupos de CEBs e digo, deixando-os nervosos, 'sem carismáticos a Igreja não pode viver, porque sem carisma a Igreja perde o Espírito.' Mas também sem CEBs, a Igreja perde seu valor. É interessante ver que as CEBs nunca tiveram problemas com experiências e movimentos leigos como a Legião de Maria, o Apostolado de Oração e com os Vicentinos. Como as CEBs, esses movimentos souberam integrar o catolicismo popular. Agora, com os carismáticos, a diferença está na metodologia da prática social. Mas, também com eles estamos dialogando."

CEBs e ecumenismo

"Eu acho que este é um campo minado e pouco trabalhado pelos agentes das CEBs e por lideranças, quer leigos quer religiosos e padres. Todos são muito mal preparados para o diálogo ecumênico. É claro que ecumenismo é, antes de tudo, uma graça do Espírito Santo. É preciso rezar muito, ouvir muito, tentar compreender, mas precisa também competência, saber que luterano não é metodista; saber que um pastor pentecostal de uma Igreja de missão não é a mesma coisa que um pastor de uma Igreja pentecostal neodenominacional. Não é somente questão de semântica, é necessário saber que existem identidades protestantes diversificadas. Precisamos de mais cursos, mas também de mais encontros ecumênicos. Pense que os protestantes que chegaram ao Sul do Brasil eram considerados traidores de Cristo: isso ainda está enraizado na mentalidade católica. A Igreja tem muito mais jeito para se aproximar dos judeus do que tratar com quem crê em Cristo. No Brasil, faltaria também uma outra coisa que é o diálogo inter-religioso com os não-cristãos."

CEBs e América Latina

"Houve mais consciência de uma abertura latino-americana, até a década de 90. Hoje, por vários motivos, entre os quais, paradoxalmente, o modelo neoliberal com sua vertente de globalização idealista, de um lado, fala-se de universalismos e, de outro, aprofundam-se, com radicalidade, os localismos. Cada um se sente mais fechado no seu mundinho. Nós somos menos latino-americanos do que fomos anteriormente. Considere, por exemplo, o problema com a Argentina que vê o Brasil como inimigo, cada vez que sobe um pouco o valor do dólar. Isso cria tensões. Nós precisamos restaurar a aliança latino-americana num novo modelo. Quem sabe, menos política e mais alternativas econômicas e culturais."

CEBs e massa

"CEBs e massa popular é um tema bastante difícil na vida das comunidades. Eu chego à conclusão de que Jesus nunca se negou a trabalhar com um pequeno grupo de doze pessoas como referência, até pedagógica. Ele cuidou desse grupo. Era o seu grupo. Ao mesmo tempo, porém, nunca se omitiu de atender a massa que o rodeava. Aqui está a questão. Devem ser reforçados os pequenos grupos como sendo o fermento e não se omitir de comunicar e atender os anseios das massas, mesmo com os meios de comunicação.

CEBs e dimensão universal da missão

"Há algumas experiências significativas das CEBs que precisam ser contadas. José Marins (e sua equipe) é um daqueles que contribuiu para globalizar as CEBs. Ele leva e traz. Age localmente e pensa globalmente. Ele contribui para criar uma catolicidade das CEBs. Outro fato de abertura das CEBs é representado pelos encontros regionais, como aquele que aconteceu entre Argentina, Paraguai, Brasil e Uruguai. Há também missionários das CEBs em outros lugares do mundo, como Luís Fernando, um brasileiro e negro, em Moçambique. Tudo isso vai criando pontes e contatos."

Sugestão para os Institutos missionários

"Eu peço aos Institutos Missionários que mantenham aberta a perspectiva do leigo missionário. Acho que vocês, revistas missionárias, têm que falar isso milhões de vezes até o pessoal acreditar. Isso também significa mudar as estruturas dos Institutos missionários e torná-los mais ágeis em relação à presença dos leigos. Outra sugestão é que vocês mantenham as revistas missionárias. Eu confesso que minha vocação tem muito a ver com as leituras missionárias que fiz e que faço. Sinto-me reforçado em saber que há missionários na Papua Nova Guiné que são promotores de vida em lugares difíceis. Publiquem testemunhos e exemplos de missionários. O exemplo vale muito mais do que mil palavras."

Históricos dos Intereclesiais

O Intereclesial é um encontro que reúne os representantes das CEBs. Vindos de todas as partes do Brasil, os representantes das Cebs encontram-se periodicamente para celebrar e avaliar sua caminhada. Esse fato representa uma oportunidade de envolver as dioceses do País (no último encontro, de 250 dioceses do Brasil, 240 estavam presentes) e representantes de outras igrejas. Além disso, os Intereclesiais cumprem a finalidade de ser memória viva da caminhada da Igreja.
Até agora, foram feitos nove encontros intereclesiais. No ano 2000, acontecerá o 10º encontro em Ilhéus, Bahia, de 11 a 15 de julho.
O 1º Encontro Intereclesial de CEBs foi realizado em Vitória (ES), em janeiro de 1975, ano em que o país mergulhou no terror por causa da repressão do regime militar. Teve como tema: "CEBs: Uma Igreja que Nasce do Povo pelo Espírito de Deus" e contou com a participação de 70 pessoas, além de bispos e assessores.
O 2º Encontro também foi realizado em Vitória, em agosto de 1976, registrando a presença de 3 bispos latino-americanos e a participação de 100 pessoas. Tendo como tema: "CEBs: Igreja, Povo que Caminha", o encontro se voltou para o engajamento das Comunidades Eclesiais de Base nas lutas sociais.
Em julho de 1979, ano da anistia, João Pessoa, na Paraíba, sediou o 3º Encontro Intereclesial das CEBs. Contou com 200 participantes, entre índios, evangélicos e latinos e discutiu o tema: "CEBs: Igreja, Povo que se Liberta."
A proximidade do fim da ditadura militar marcou o 4º Encontro. Realizado em abril de 1981, em Itaici (SP), teve como tema: "Igreja, Povo Oprimido que se Organiza para a Libertação" e contou com a participação de 280 pessoas. 
Em 1983, o 5º Encontro aconteceu na cidade de Canindé (CE), famoso centro de romaria nordestino. Para lá confluíram mais de 500 participantes. O tema do encontro foi: "CEBs, Povo Unido, Semente de uma Nova Sociedade."
O 6º Intereclesial foi realizado após a ditadura militar (1986), em Trindade (GO) - dois anos depois da campanha das "Diretas já" e um ano após a eleição de Tancredo Neves, que marcou o início da Nova República. Com a participação de 1647 pessoas, apresentou o tema: "CEBs: Povo de Deus em Busca da Terra Prometida.".
No 7º Encontro, realizado em julho de 1989 na cidade de Duque de Caxias (RJ), uma das regiões mais pobres do país, estiveram presentes 2.550 pessoas, entre representantes de 19 países latino-americanos e 12 Igrejas evangélicas. O tema foi: "CEBs, Povo de Deus na América Latina a Caminho da Libertação". Refletiu o importante momento que a sociedade brasileira vivia: eleições diretas para presidente da República, depois de 20 anos de silêncio.
O 8º Encontro aconteceu em Santa Maria (RS), em setembro de 1992, ano do 5º centenário da conquista da América, e às vésperas do impeachement de Collor. Registrou a participação de 2.238 delegados, 88 representantes latino-americanos e 106 evangélicos. Teve como tema: "CEBs: Culturas Oprimidas e a Evangelização na América Latina."
Realizado em São Luiz (MA), o 9º Intereclesial aconteceu em julho de 1997, contou com a participação de 2.700 pessoas que refletiram sobre tema: "CEBs: Vida e Esperança nas Massas". Ao final do encontro, os delegados escolheram a Diocese de Ilhéus, na Bahia, para sediar o 10º Encontro Intereclesial.

O 10º Intereclesial

O 10º Intereclesial será realizado em Ilhéus (Bahia) nos dias 11 a 15 de julho do ano 2000. O tema será: "CEBs, Povo de Deus, 2000 anos de caminhada." Ressaltará a origem das CEBs junto com o surgimento do cristianismo. Dessa forma, estão envolvidos nas reflexões o jubileu do nascimento de Cristo, os 500 anos do Brasil e os 25 anos dos Intereclesiais, numa perspectiva de avaliação e celebração da caminhada.

A Oração

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, a melhor Comunidade, Deus da vida e do amor!
Celebrando os 2000 anos da caminhada e os 25 anos dos Intereclesiais, caminheiros - caminheiras de todo o Brasil, da Nossa América, do Mundo, caminhamos, peregrinos, para Ilhéus.
Com o São Jorge das lutas do Povo, com o São Jorge da lua dos sonhos; com o mártir são Sebastião e todas as testemunhas de ontem e de hoje.
Caminhamos para a Bahia de todos os santos e santas pátria dos romeiros, artistas e lutadores, Nordeste aberto ao mar, baía de muitas águas e de todas as culturas, santuário da negritude e da indianidade.
O berrante do Jubileu e os atabaques dos 500 anos nos convocam a refazer a História e a Evangelização renovando a Sociedade e a Igreja na vivência de uma verdadeira Eucaristia de partilha de fé, da terra e do pão, rumo ao Porto Seguro do Reino.
Dá-nos um coração ecumênico e ecológico, fidelidade à oração e à solidariedade, coragem e ternura na militância.
Fortalece nossa esperança e nosso compromisso na opção pelos pobres, nas lutas pela justiça, na construção da cidadania, na causa do Evangelho.
Pelo Senhor do Bonfim, Caminho do bom andar, e por Santa Maria da caminhada. Amém, Axé, Aleluia!

Pedro Casaldáliga