EU E OS ÍNDIOS...

EU E OS ÍNDIOS...

Silva Campos, Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, às pag. 25 e 26-2ª Edição 1981 – Edição comemorativa de elevação à categoria de cidade:

“Conclue-se da leitura do décimo-sétimo capítulo do regimento de Tomé de Souza, ordenado por D. João III, que os índios que por aquele

tempo inquietavam Ilhéus eram tupinambás, e não os tupiniquins, amigos e aliados dos portugueses” Eis os termos do mencionado capítulo

(106)...

Em Olivença, no dia 11 de dezembro do ano de 1958, fui parida às 04:00 da manhã e com muito orgulho, digo para todos: Dentre os netos de Lourival

Mendonça, eu fui a única que nasceu em Olivença.

A minha infância foi verde e eu era livre.

Eu tive uma infância maravilhosa e tricolor: O verde escuro das matas, o branco da areia das praias desertas e o azul do mar. Os cheiros e sabores de infância

me acompanham até hoje. A liberdade que eu vivi na infância, marcou a minha forma de ser e agir.

Foi em meio à natureza, de frente para o mar, ao lado dos manguezais, berço do grande mar, onde a vida grita, que eu dei os primeiros passos, aprendi a

correr, aprendi a nadar sem medo da correnteza, a descobrir o mundo, um mundo ainda muito restrito, mas que para mim era infinito, lá naquele lugar o céu

era mais azul; existiam mais estrelas no céu; a praia era só minha; os animais silvestres que eu defendia, eram aos meus olhos inofensivos; os pássaros eram

mais coloridos. Foram sete anos de exploração daquele mundo maravilhoso, sendo 3 em Olivença e 4 no Acuípe. Os primeiros sete anos de vida de um Ser

Humano livre.

Meu pai um delicioso fanfarrão, para ele tudo sempre foi festa, com ele aprendi muito e serei sempre agradecida: Pela coragem em enfrentar desafios; nada

temer; entrar de cabeça mesmo que as águas sejam turvas; amar a natureza; ser feliz sem ter; amar muito a tudo e a todos; respeitar a individualidade; a

impulsividade; a ousadia; o superar os próprios limites; enfim... Minha força veio dele.

À minha mãe, serei agradecida: pelos valores morais; pelo senso de limpeza e organização; por saber me defender sempre; não atacar nunca; a frear a

impulsividade; a lutar pelo que quero; a respeitar o homem enquanto líder da família; a ser fiel; a ser doce em meio a tantas dificuldades; a sonhar com um

mundo melhor; a ser mulher por inteiro; a ser amiga.

E assim, por causa do sonho dessa mulher guerreira que queria oferecer estudos para as filhas, um dia deixamos para trás aquele lugar maravilhoso, onde não

sustento as lágrimas sempre que volto. Minha irmã optou por continuar morando em Olivença acompanhando meus pais e eu até hoje moro no centro da

cidade. Lá em Olivença e no Acuípe, ficaram os melhores anos base da minha vida e é para lá, que sempre volto em pensamento quando tenho que decidir

algo. Ali está a minha força, a fonte da minha alegria. Está tudo tão diferente... mas é aquele o lugar. Mesmo que espiritualmente, busco sempre estar ali.

Apesar de ter ido morar no Acuípe e depois em Ilhéus (como falávamos à

época), nossas férias de junho e dezembro, eram sempre em Olivença na

casa do meu avô Lourival Mendonça e tudo continua vivo dentro de mim:

Tomar banho na Tororomba ou no “Buraco do Padre”; Pescar siri no Jairi

com os primos e todos sob o comando deTia Jó; Ir à Praia no Cai N´Agua e

depois, antes de subir a ladeira da Baixa do Campo, enfrentando a areia

quente correndo em busca das poucas sombras do pés de “caxandó = côco

de xandó” e algumas touceiras de “cardo” (fruto vermelho suculento de um

cacto), era obrigatória a parada na fonte “Água dos Milagres”; Pescar na

“Pedra do sino”; Comer Tapiá em “Wilson Leal” onde hoje é o Jubiabá;

Pegar piaba embaixo da ponte da Batuba e engolir viva para aprender a nadar; Flutuar na Tororomba com bóia de coco seco; o pão “peito de moça”que tio

Fragassi fazia e muitas vezes comer a massa crua; chupar beriberi com sal; pegar "emprestado" no quintal de Professora Cleuza (Tia de Claudio e Elvio

Magalhães) as deliciosas mangas “papo de rola”e genipapo; beber água de coco na Buíra; passar correndo pelo cemitério; brincar de “cozinhado” no

Curupitanga; Catar “caxandó” ; garu e caju; pegar gajé nas pedras, Sr. Deraldo que apagava as luzes às 22:00h, o cheiro e a espuma branca do negro

sabonete phebo no véu de noiva e de pescar muito acompanhando meu pai; do Ipanema (sítio do meu tio Vivaldo), do Canabrava (Fazenda da viúva de

Laudelino Mendonça); explorar a Igreja e sentir medo do olhar do “Senhor Morto”e dos Santos no altar da Igreja de N. Srª das Escadas; das histórias e estórias

do Pe. Amaral (Filho de Cel Nonato e D. Ester); Zé do Gancho no sítio de Tico Castro dando carreira para que não tomássemos emprestados as jacas e os

araçás. Era importante não ir às ondas da Praia da Batuba, pois lá tinha muito pecem (buraco muito fundo com redemoinho, onde não dava pé, ou seja, sem

pé).

Eu gostava das festas em Olivença: A puxada do mastro de São Sebastião; A queima do Judas; O São João com sanfoneiros, saindo de casa em casa

perguntando: São João passou por aí? Forró na casa do Sr. Durval, a bandeira do Divino, do Parque do Sr. Zé do Parque com as barquinhas, das quermesses

com as preás do soldado Elias, do pau de sebo e da cabra cega, de “Bá” distribuindo presentes para as crianças no Natal .

Tive como amigos de infância muitos descendentes de índios e que hoje, se reconhecem Índio Tupinambá, o que é justo, tanto quanto muitos brasileiros e não

índios, filhos de pais ou mães de outra nacionalidade, buscam utilizar-se do que é direito seu, o reconhecimento da dupla nacionalidade e nem por isso deixam

de ser brasileiros, mas resgata suas raízes e passam a gozar de duplos direitos.

Eu era criança e convivi com índios e ninguém que nasceu ou mora em Olivença pode negar isso. Sempre vivemos de forma pacífica. Lembro da nossa

convivência. E eu fico muito triste e, por vezes, muito zangada, quando estereotipam o índio como sendo: preguiçoso e fico a imaginar... O homem “branco”

veio aqui, cristianizou impondo o seu Deus, escravizou, dizimou, tomou tudo, fez o povo do lugar perder a identidade, os costumes, fazendo com que ao longo

de cinco séculos, esse povo fosse visto como menor, discriminando e chamando de preguiçoso, quem sempre soube viver. Hoje, todos trabalham para um dia

ter direito a viver como os índios sempre viveram.

Meus avós chegaram de Sergipe para a Bahia em 1923 e fizeram sua primeira parada na localidade de Putumuju, depois fixaram residência em Barra de São

José (nas proximidades de Itajuípe), até que em 1937 foram para Olivença.

Em Olivença, meu avô que já havia sido lenhador quando chegou de Sergipe, foi pedreiro, comerciante, comprou terras, construiu em 1940 a casa onde eu

nasci e nela morou até 1974. Em 1944 abriu em Ilhéus a pensão Santo Antonio, que funcionou por dois anos, quando retornou para Olivença e continuou

sendo comerciante, padeiro e agricultor. Lembro muito das "Roças" que ele comprou: Curupitanga, assim como, da Buíra que mais freqüentávamos por ser

mais próximo da Vila. Ir até o Curupitanga passando pelo “pé de chauã” era semelhante a passar pelo cemitério. Formávamos uma corda de caranguejo, todos

de mãos dadas e corríamos o máximo que podíamos, pois diziam que a árvore era mal assombrada. No Campo São Pedro, era outra carreira, por causa do

rumãozinho que jogava pedras nos telhados à noite e vivia por aquelas bandas. Eram muitas as estórias. Chegar no Curupitanga era uma festa, pois lá éramos

donos de nós mesmos, tomávamos banho de rio, fazíamos a comida e tínhamos que retornar antes do anoitecer. Éramos uns 10 a 15 dos netos, que estavam

sempre juntos, de um total de 44.

As épocas do ano em que mais víamos os "caboclos", como era chamados os índios, era em janeiro na Puxada do Mastro de São Sebastião. Era lindo, ver as

caboclas com vestidos coloridos, cintos vermelhos, sapato e meia e usando batom. Os cabelos negros lisos, lindos e cheirando a óleo de côco. Fecho os olhos e

as vejo, mães e filhos, no outeiro da Igreja de N.Srª das Escadas, lá do alto esperando ver o mastro aproximar-se. A festa acontecia no dia 06 de janeiro e

depois no segundo domingo do mês de janeiro.

Lembro das estórias que meu pai contava do “boi tatá”, do bode dentro da Igreja, de Dudu lobisomem e tantas outras coisas. A casa do Sr. Elpidio e D.

Conceição, os pais de Ioiô Oliveira, ali na esquina. Carlinhos e Celina foram amigos de infância, Élvio Magalhães, Dudu de Geísa e tantos outros. Éramos felizes

e não sabíamos quem eram os índios e os não índios, pois as diferenças não existiam para nós.Todos os janeiros, mesmo morando em Ilhéus a partir dos 8

anos de idade, voltávamos para Olivença, pois tínhamos a obrigação de puxar o mastro de São Sebastião e meu pai batia o sino que anunciava a chegada do

mastro e era grande a alegria com os fogos, os homens levando a corda até o altar e a missa. No dia de São Sebastião (dia 20 de janeiro) o mastro era

hasteado se fosse necessário e de uma ou outra forma, o mastro terminava na fogueira de São João, para a alegria da comunidade.

Durante muitos anos, após a construção da estrada e a invasão da “minha Olivença”, por gentes de todo lugar, sentia ciúmes, pois eu me sentia invadida.

A cor da minha pele é branca, mas meu avô materno era “caboclo”, não sei exatamente onde está minha descendência afro, mas sei que ela existe, pois

fisicamente tenho traços afros. Eu sou brasileira! Eu sou negra, eu sou branca e eu sou índia.

O Brasil vive um momento de resgate, de reconhecimento e de retomada, as pessoas ainda não entenderam que elas podem auto reconhecer-se como afro

descendente, como índio ou continuar sendo não índio, dependendo de qual seja a sua origem, mas somos todos nascidos neste mesmo território e os que

chegaram foram misturados aos que aqui estavam.

Estou muito triste com isso e tenho refletido muito, pois é justa a retomada, mas não é justa a retirada de quem também considera hoje aquele lugar como

também sendo seu. Fico perplexa com a falta de respeito daqueles que não querem reconhecer os índios, pois eles estão lá e eu sei que existem. Eu sei o que

eles sentem, pois vivi este sentimento de que minhas terras estavam sendo invadidas e preferi abrir mão delas, saindo do lugar e voltando apenas para visitar

meus pais. Imaginemos então o sentimento deste povo ao longo destes 500 anos, passando de geração para geração

Eu estava na Câmara de Vereadores e ouvi a antropóloga argentina e hoje casada com um índio “legitimando assim o que dizia”, dizer que aqui não existia

índio Tupinambá e eu comecei a pesquisar, até que encontrei no livro de Silva Campos, Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, às pag. 25 e 26-3ª

Edição 1981:

“Conclue-se da leitura do décimo-sétimo capítulo do regimento de Tomé de Souza, ordenado por D. João III, que os índios que por aquele tempo inquietavam

Ilhéus eram tupinambás, e não os tupiniquins, amigos e aliados dos portugueses” ...

Por questões também culturais e com medo de sofrer preconceito, tanto descendentes de índio quanto de africano, preferem dizer orgulhosamente que seu

avô, bisavô ou “zilhavô”, era Europeu. Ainda hoje, ouvimos pessoas mulatas ou caboclas se auto reconhecerem como “brancas”.

Na minha família, minha irmã teve como companheiro um legítimo descendente Tupinambá e da relação, tiveram um filho, mas lembro que meu avô, aquele

homem de bom coração, que muitos índios chamavam de papai Mendonça, que sempre tinha no bolso uma cédula para dar a um ou outro índio que o

procurava para quem estava sempre pronto a dar um conselho ou primeiros socorros em caso de acidente e ainda, que batizou metade do povo daquela terra,

não queria nem saber de que a neta estava grávida de um “caboclo”. Nem sempre machucar, passa necessariamente, pela agressão física, mas nós

encarávamos aquela cena de forma até engraçada, pois era no mínimo absurda. Vitor nasceu, trouxe alegria para todos e é meu afilhado. Um belo adolescente,

estudioso, sem vícios, um Ser Humano lindo com defeitos e qualidades!

Tanto agricultores quanto índios, devem sentar-se à mesma mesa e aprenderem a COEXISTIR. Além disso, não podemos incitar a guerra entre os homens.

Temos que estar atentos principalmente às oportunidades de promoção político partidária de alguns, que aproveitam este momento para autopromoção. Não

podemos entender que o Município por perder o poder sobre este território, ficará mais pobre, já que também não terá mais despesas... e essa informação

carece como tantas outras de esclarecimento. Temos que respeitar uns aos outros e de forma muito segura, índios e não índios devem combater os discursos

com forte teor discriminatório e desrespeitoso ao Ser Humano, pois existem “defeitos” em todas as raças e suas descendências: Caucasóides, negróides e

mongolóides. Nestas três raças encontramos humanos que são: maravilhosos, bandidos, viciados, etc. Isso independe da raça e da cor da pele, pois não existe

raça superior. Nós estamos buscando a equidade social e não os conflitos. Neste momento é grande a responsabilidade do Estado, pois independerão de

Governos as decisões Constitucionais. Se existem fraudes, erros, que sejam esclarecidos, mas jamais desqualificar, desrespeitando semelhantes nossos. É

chegado o momento da PAZ!

Devemos lembrar neste dia 28 de junho de 2009, quando Ilhéus completa 475 anos, que todo aquele que habita este território merece RESPEITO.