MUDANÇAS NAS PRÁTICAS DAS CEBs:

MUDANÇAS NAS PRÁTICAS DAS CEBs:

 

A partir da fala dos participantes

DÉCADA DE 80

Antônio, da Favela Esperança - zona Sul de São Paulo, em 1986, associa claramente a vida da CEB com as celebrações, as lutas populares, a alfabetização de adultos e a reforma agrária.

"Eu vejo isto, se não fosse a comunidade Esperança que sempre está junto com a gente, transmitindo este incentivo, eu acho que toda nossa favela teria acabado. Até a esperança teria acabado. Se precisarmos fazer uma melhoria no barraco, recorremos à comunidade. E a Igreja tem dado sempre apoio para nós. A comunidade tem sido a mão direita da favela. Eu faço questão de participar das celebrações porque acho que, através da leitura do Evangelho, a gente consegue ter forças e se enriquecer. Se não houvesse celebração talvez a gente se perderia e a luta dos moradores ficaria prejudicada. Pensa que eu nem sabia ler e escrever. Não é que eu agora sei muito, mas em vista do que sabia, hoje tenho uma visão mais clara. Começamos a nos reunir para apreender a ler e a escrever. Estou falando dos Círculos de Cultura do Paulo Freire. Está sendo muito bom. Assim nós temos aulas para adultos, celebrações, reuniões de reivindicação e lutas para a melhoria da favela. Com certeza vamos conseguir a vitória. Com relação à reforma agrária, eu penso que cada um tem direito a seu pedaço de terra, seja no campo ou numa favela, porque Deus, quando fez o mundo, deixou a terra para todo mundo usar. E hoje o que vemos? Um cara, se tiver um pedacinho de terra, deve pagar imposto, tem que pagar isso e aquilo. Os tubarões estão tirando terra da gente. Fico sabendo que há muitas mortes por causa da terra. A Reforma Agrária é uma coisa séria e devemos nos envolver mais.

 

CEBs em missão

Depois de Jesus, todos os cristãos e cristãs são chamados a serem discípulos missionários, a serem profetas, pessoal e comunitariamente, pois formam um só corpo em Jesus. Estar em missão é estar na luta pela promoção do outro. É buscar condições para que  todos sejam incluídos e respeitados com dignidade e, acima de tudo, iluminado pela Palavra de Deus.

As CEBs são espaços reais da vivencia dessa memória em que todos e todas são chamados a participarem do corpo de Cristo com seus serviços e ministérios.

Hoje um dos grandes desafios das CEBs é voltar às fontes, resgatando um dos aspectos mais originais da comunidade cristã: ser comunidade aberta. A comunidade está aberta para todos no encontro, na acolhida e no respeito ao outro, ao diferente, através da luta pela vida, que é o projeto do Reino de Deus, com possibilidade de se transformar num mundo possível para todos. Este é o grande desafio de ser e viver relações em comunidade.

DÉCADA DE 90

Carmen, Zinha e pe. Fernando da Cruz (Vila Joaniza -SP), caracterizam as CEBs nos anos 90 como voltadas para si mesmas, tendo perdido muito do espírito de mudança.
"Nossas comunidades, que um tempo tinham nascido como Comunidades Eclesiais de Base, estão ultimamente muito apáticas no compromisso social e muito centradas na celebração. Parece que o povo das comunidades não reage mais como antigamente. E pensar que hoje há muito mais pobreza e sofrimento. Até parece que há uma alergia a todo e qualquer compromisso de transformação da sociedade. A verdade é que as lideranças antigas não se preocuparam com o surgimento das novas lideranças e, também, que muitos ficaram desencantados diante dos poucos resultados. O horizonte se encurtou. Há cansaço, mas mais do que isso: indiferença. E a pobreza vai aumentando. O problema é que o espaço da Igreja virou um espaço fechado, voltado para dentro. Grandes celebrações em que as emoções são levadas ao extremo e... nada mais. Certo não dá para repetir aquilo que foi nos anos 70, mas é necessário encontrar novos caminhos. É sofrimento demais no meio do nosso povo. Há algum compromisso social presente, como uma tentativa de reconstruir a alfabetização de adultos ou um trabalho com crianças. Mas é somente uma minoria que toma a iniciativa e o resto não quer saber de nada. A verdade é que neste final de milênio a Igreja está sempre mais se fechando sobre si mesma. Quer juntar gente para quê? Se não é em vista da construção do Reino, de olhar aberto sobre a realidade, não leva a lugar nenhum".