O Sentido do Jubileu - Por Padre Marcio Luciano

O Sentido do Jubileu - Por Padre Marcio Luciano

Centenário da Diocese de Ilhéus: “O que vimos e ouvimos nós anunciamos”(1Jo 1, 3)

A nossa diocese está se preparando para as celebrações do jubileu do centenário de sua criação. E para bem celebrar este momento o nosso Bispo Diocesano Dom Mauro, convidou os padres, os religiosos, as religiosas, os cristãos leigos e leigas, pastorais e movimentos, para um tempo de preparação para este evento. A partir do seminário diocesano “Rumo ao Centenário”, definiu-se metas e objetivos a serem alcançados durante este período, que introduzirá a nossa Igreja diocesana num novo tempo de graça e de missão.

A programação aprovada pela assembléia e que se desenvolverá em três anos, apresenta como perspectiva iluminadora o aspecto histórico, formativo e missionário no âmbito da Igreja Diocesana, e na universalidade de comunhão com toda a Igreja, à luz do tema central deste centenário: “O que vimos e ouvimos nós anunciamos” (1Jo 1, 3).

Com o espírito jubilar, e com a pausa para a escuta atenta à convocação do próprio Deus, diante da sua face velada e revelada na história diocesana, e no caminhar do povo, gostaria de convidar você, caro leitor a uma reflexão bíblica, e teológica sobre o sentido do jubileu que celebraremos na nossa diocese. É verdade que a nossa tradição cristã lança suas raízes no solo bíblico do Antigo Testamento.

Assim quando Jesus, na Sinagoga de Nazaré, quis anunciar, com sua vinda, um jubileu, um "Ano de Graça", citou uma passagem do profeta Isaías “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me consagrou com o óleo, para levar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar aos prisioneiros a libertação e aos cegos a recuperação da vista; dar liberdade aos oprimidos, e proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4, 18-19: cf. Is 61, 1-2).

Este "Ano de Graça" na linguagem bíblica significa o ano jubilar, fixado pela lei de 50 em 50 anos (cf. Lv 25). O jubileu mais solene reforçava o ano sabático, de 7 em 7 anos, em que se deixava a terra repousar, se libertavam os escravos, se perdoavam as dívidas.

Vejam que no texto sagrado de modo solene Jesus acrescenta: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21). Para compreender essa expressão de Jesus, ajuda-nos recuar ao Antigo Testamento a fim de entender o sentido primitivo e como o Povo de Deus celebrava o jubileu.

O Antigo Testamento conhecia a instituição do ano sabático, de 7 em 7 anos, e mais solenemente a cada 50 anos o ano do jubileu (cf. Lv 25, 1-22). Procurava-se então reconstruir o projeto de Deus na sua maior pureza, provocando maravilhosa e ampla reconciliação no interior do povo e com a natureza. Ao vibrar do toque da trombeta, anunciando o ano jubilar, diz a Palavra de Deus: “Proclamareis a libertação de todos os moradores da terra” (Lv 25, 10). Desta sorte, as pessoas que se tinham afastado de sua família ou grupo retornavam reconciliadas, de maneira nova, à relação entre elas.

Tratava-se especialmente daquelas pessoas sem possibilidade de pagar sua dívida. Por isso, renunciava-se cobrar-lhes juros e usuras. Aquelas que se tinham vendido como escravas, deviam ser alforriadas. Reconciliação em nome do temor de Deus. Em termos sociais, o ano sabático e o ano jubilar inseriam-se, no mundo judeu, na esfera econômico-religiosa. Esfera religiosa, porque tudo em Israel vinha interpretado à luz da vontade, da revelação de Deus.

Esfera econômica, porque o ano sabático e o ano jubilar tinham incidência direta sobre a vida nas relações materiais e sociais do povo. Ao longo dos anos, acontecia a alienação de bens de família, o aumento do empréstimo a juros. Por via de conseqüência, muitos se tornavam pobres, servos dependentes. O ano sabático e ano jubilar vieram como uma instituição para corrigir esses males. Um israelita não podia ficar mais de 6 anos na escravidão (cf. Ex 21, 2-6).

Os campos, as vinhas, os olivais deviam ficar em repouso a cada sete anos para que os pobres pudessem colher o produto abandonado (cf. Ex 23, 10-11). Também a cada sete anos se fazia o perdão dos empréstimos, das penhoras pessoais retidas para reembolsar as dívidas (cf. Dt 15,1-2). No ano diretamente jubilar, a cada 50 anos, havia uma libertação de todos os habitantes do país, as terras descansavam, cada um voltava a seu antigo patrimônio. A Lei dizia claramente: "Não haverá indigente em teu meio, porque Javé, certamente, há de abençoar-te no país que Javé, teu Deus, te dá em propriedade para o ocupares" (Dt 15,4).

O Ano Jubilar portanto, é como um novo começo, uma nova criação, e por isso tudo retornava à ordem primeira. Era uma re-criação, uma re-organização das relações familiares, sociais e religiosas. Do perdão das dívidas, do repouso da terra, da libertação dos escravos, da devolução das terras às famílias dos antepassados; estabelecia-se o grande resgate, onde o próprio Deus se colocava como defensor dos escravos, dos desafortunados, dos que, por doenças ou outras desgraças, caíram em desgraça tão profunda que não teriam mais como se resgatar.

Na perspectiva do Evangelho, o jubileu é recordado por Jesus como Ano da Graça do Senhor. E que citamos a titulo de conhecimento no início deste artigo. Foi na Sinagoga de Nazaré que Jesus anunciou o jubileu como Ano da Graça do Senhor, servindo-se das palavras do profeta Isaías.

E Ele mesmo elenca as expressões concretas dessa realidade nova. Em primeira linha, está o anuncio da Boa Nova aos pobres, seguido da proclamação da libertação aos prisioneiros, da recuperação da vista aos cegos, da liberdade aos oprimidos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus sonhou com o Reino de Deus presente entre nós, crescendo entre nós no escondimento e silêncio da semente e do fermento.

Eis portanto o Ano da Graça do Senhor. A Igreja usou ao longo de sua história a promulgação de jubileus ou anos santos. Foi o Papa Bonifácio VIII quem convocou o primeiro jubileu da história do cristianismo, no ano de 1300, retomando antiga tradição judaica que mandava celebrar um ano jubilar a cada 50 anos.

Nessa antiga tradição, os pecados e as dívidas do povo eram perdoados, num ano de gratidão, perdão e união.