TODOS OS SANTOS

TODOS OS SANTOS

            Ao lembrarmos os santos e santas de Deus, renova-se para nós a Palavra de Jesus: “Sede santos como Deus é santo”. “Na verdade, ó Pai, vós sois santo e fonte de toda santidade” (Prece Eucarística, II). Somos todos chamados à santidade.

            Na Páscoa de Jesus, temos certeza de que a vida vence a morte e de que somos santificados pela ação do Espírito que habita em nós. Ao mesmo tempo em que nos alegramos celebrando a festa de todos os Santos, devemos nos perguntar: como ser santo? O que significa ser santo?

            O livro do Apocalipse, capitulo 7 e versículos 2 a 4 e 9 a 14, sustenta o ânimo das comunidades que padeciam tremendas perseguições pelo Império Romano. A tônica é a esperança. Deus protege do julgamento aqueles que lhe são fiéis e os salva. O autor revela que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de 12 x 12 x 1.000). A multidão de fiéis que ninguém pode contar — gente de todas as tribos e nações, povos e línguas — reconhece que a salvação é obra de Deus e do Cordeiro.

            Em clima de celebração e discernimento somos convidados a descobrir, no meio dessa imensa multidão, os mártires e santos que resistiram até as últimas consequências para defender o nome de Deus, implantar a justiça e testemunhar a solidariedade. Sua memória nos anima a perseverar na luta pela implantação do Reino de Deus na terra.

            O Apóstolo João, na 1ª. Carta, capítulo 3 e versículos 1 a 3, escreve à comunidade em crise, em razão da desistência de um grupo. É vazia e sem valor a espiritualidade sem uma prática de vida cristã, uma vez que não é possível amar a Deus sem amar o próximo e sem formar autênticas comunidades, O desafio está em integrar-se plenamente à comunidade e amar os seus membros. Se Deus é Pai, todos somos seus filhos, consequentemente todos devemos nos amar como irmãos e irmãs.

            As Bem-aventuranças, que encontramos no Evangelho de Mateus, capítulo 5 e versículos 1 a 12a,  apresentam esse ideal cristão, traduzido nas atitudes fundamentais de quem se propõe a ser santo, seguindo a Jesus. A expressão “pobre em espírito” expressa muita exigência e não apenas desprendimento dos bens materiais. Ser pobre “em espírito” exige superar a cultura que coloca a realização da pessoa apenas no aspecto econômico e social. Significa aceitar a Palavra de Deus, Jesus Cristo, e nos convida a viver em total disponibilidade à vontade de Deus e fazer dela nosso alimento.

            O discípulo é solidário, compartilha os sofrimentos dos outros; tem um relacionamento cordial com os demais; deseja ardentemente saciar a sede de justiça neste mundo; possui um coração íntegro e livre de toda a ambiguidade; é aberto e acolhedor; empenha-se para que aconteça a paz como consequência da justiça.
            O discípulo tem consciência de que será hostilizado por aqueles que se negam a reconhecer os direitos dos outros, mas se alegra com a promessa da posse do reino dos céus.
            No mundo atual, prensados pela filosofia da violência e ridicularizados nos gestos de solidariedade, ser santo significa ter uma proposta alternativa de solidariedade.
            Quando veneramos ou falamos de um santo de nossa devoção, somos tentados a contemplá-lo pela ótica perfeccionista. “Ele foi perfeito”, “Um super-humano”. Não! Os santos, antes de tudo, foram pessoas comuns. Eles fizeram sua caminhada de vida seguindo os passos de Jesus. Participaram da realidade do povo santo e pecador. Contudo, eles se destacaram na vivência radical do ideal proposto pelas bem-aventuranças. Foram pessoas que, por seu modo de viver a Boa-Nova, marcaram significativamente a sociedade de seu tempo e se transformaram em referenciais atualizados para a história.

            Quanto à veneração que a Igreja tributa aos santos, o Concílio Vaticano II esclarece: “Não veneramos, porém, a memória dos santos apenas pelo exemplo que nos dão; fazemo-lo mais ainda para que a união de toda a igreja no Espírito se consolide pelo exercício da caridade fraterna. Pois, do mesmo modo que a comunhão cristã entre os que peregrinam neste mundo nos coloca mais perto de Cristo, assim também a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem promanam como de fonte e cabeça, toda a graça e a própria vida do povo de Deus. ” (LG, n. 50).

            O convite evangélico à santidade é proposto a todos. Não é uma realidade impossível de alcançar. Tudo depende do vigor com que se vive o ideal das bem-aventuranças na relação com Cristo e nos compromissos inerentes à vida. Eu e você podemos ser santos.

 

Dom Mauro Montagnoli

Bispo Diocesano de Ilhéus